quinta-feira, 2 de abril de 2009

Pergunte e não responderemos

Nem sempre a resposta está pronta. Há uma beleza na dúvida que vale à pena de ser apreciada. Forjar a resposta antes do tempo é a mesma coisa que colher frutos verdes... Demora na dúvida... E descubra a sabedoria que insiste em se esconder na ausência de palavras.A outra face da dúvida... Responder perguntas é fácil. Difícil é ensinar a conviver com as dúvidas, forjar a vida a partir das incertezas, das inconclusões e reticências, permitindo que o mistério sobreviva às constantes invasões da racionalidade, no horizonte de tantas realidades que não são esdobráveis, possíveis de serem dissecadas.Viver pra responder, cansa.
Há muito ando lutando para abandonar esse espírito de onipotência que tomou conta de nós. Sentimo-nos na obrigação de dar respostas para tudo. Não sabemos dizer que não sabemos, mas insistimos em falar de coisas que ainda nem acreditamos, só para não termos que enfrentar o desconcerto do silêncio. Falamos porque não suportamos a ausência de respostas. Talvez seja por isso que tantas pessoas têm buscado as religiões de respostas simples. Por que sofremos? Por que pessoas boas sofrem coisas ruins? Perguntas que são constantes na vida humana, sobretudo no momento em que a tragédia nos abate, o sofrimento nos visita. Torna-se muito simples justificar o sofrimento como forma de pagamento por vidas passadas, processos de purificação que expiam erros cometidos por outros. Compreensões absolutamente simplistas, redutoras, e portanto, resposta fácil.A dor gera perguntas. A alegria, nem sempre. A religião é um recurso humano que nos ajuda a conviver com as questões mais fundamentais que são próprias da nossa condição. Ela responde, mas nem sempre essa resposta pode ser formulada através de palavras. Isto porque a religião é acontecimento da vida inteira, é processual, se dá aos poucos.Jesus quis ensinar aos seus discípulos essa sabedoria. Não foram poucas as vezes em que eles lhes pediam explicações e respostas fáceis. Jesus nunca caiu nessa armadilha. Ao invés de entregar-lhes respostas prontas, Ele lhes ensinava a conviver com a dúvida criativa.Também sua mãe aprendeu isso com ele. Guardava tudo no seu coração, porque sabia que a experiência do distanciamento é uma excelente forma de conhecimento.Há fatos que se dão no agora da vida e que só poderão ser entendidos depois de passado um determinado tempo... O fardo da prepotência de saber tudo... Nem sempre a dúvida do momento possui resposta. Há que se ter uma paciência de saber fazer essa leitura. Conviver com a dúvida é uma forma interessante de construir respostas. Você já deve ter experimentado concretamente na sua vida essa premissa. O sofrimento desta hora gera ensinamentos que só poderão ser recolhidos amanhã. Nisso consiste a beleza da religião: ajudar a conviver com a dúvida, nutrir a esperança que não nos deixa esmorecer, preparar o coração para os tempos reservados para o silêncio da existência.Durante muito tempo os padres e religiosos tiveram que carregar o fardo da onipotência. Para tudo eles teriam que ter respostas. Falavam até de coisas que não acreditavam. Correram o risco das receitas mágicas, das frases prontas e do amor teórico.
Essa postura gerou um desgaste histórico na figura do padre. Por falar de tudo, acabou deixando de falar do essencial. Por saber tudo, acabou esquecendo que a proposta de Jesus é também uma forma de não saber, um jeito interessante de descansar no silêncio da simplicidade que não sabe dizer, porque não é adepta da pressa.Os padres ficaram sofisticados. Têm um discurso hermético que insiste em responder e interpretar todas as perguntas que lhes caem nas mãos. São capazes de chegarem num velório e repetir em alto e bom tom, receitas sobre a morte, que nem eles mesmos conhecem os ingredientes.Talvez seja por isso que estejamos tão desacreditados em nosso discurso. Pessoas simples andam recebendo mais atenção que clérigos inteligentes.
Pessoas simples são aquelas que se deixam tocar pelas perguntas, e que sabem apreciar o encanto da ausência de palavras. São capazes de deixar a noite deitar seu manto sobre a dúvida que o sol aqueceu. Seguem a fio a sabedoria bíblica que nos ensina, que debaixo do céu, há um tempo para cada coisa.Quem demora na pergunta já intui uma resposta...Eu sei que você sofre constantemente os apelos deste mundo de respostas prontas. Talvez até já tenha pensado em trocar sua religião por uma outra que lhe responda melhor seus questionamentos.
Só não esqueça que nem sempre você precisa de respostas. A vida, por vezes só é possível no silêncio do questionamento. A desolação do calvário, o profundo silêncio de Deus, a mãe que acolhe o filho morto nos braços é uma das exortações mais belas que a humanidade já pôde conhecer.Seria injusto se afirmássemos que só vivemos de silêncios de perguntas. Não, o cristianismo também tem respostas belíssimas para a vida humana. Os padres são portadores de uma boa nova que tem o poder de responder os anseios mais profundos da condição humana. Não só os espíritas possuem respostas convincentes...Nós também sabemos responder, mas por estarmos fundamentados numa antropologia que não nos permite qualquer forma de reducionismo é que defendemos que nem sempre teremos respostas para todos os problemas do mundo.Respostas não caem do céu, mas são geradas no processo histórico que o ser humano realiza. Viver é maturar, é amadurecer, é superar horizontes, acolher novas possibilidades e descobrir respostas onde não imaginávamos encontrar.Conviver com dúvidas requer maturidade, e isso não é aprendizado que se dá da noite para o dia. A dúvida de hoje pode ser a certeza de amanhã.

(Pe. FÁBIO DE MELO, scj)

sexta-feira, 27 de março de 2009

As baratas

Profundamente incomodada com a “cara de pau”, insistência, ousadia e astúcia das baratas eu decidi dedicar um espaço aqui a elas. Dedicar, não no sentido de homenagem (rs). Dedicar algum tempo do meu raciocínio, da minha visão e inteligência para saber mais sobre elas.
Eu só sei que elas são muito antigas, estão aí há mais de milhões de anos. Isso me desanima um pouco quando penso em comprar pozinhos mágicos, açúcares venenosos ou qualquer outra coisa que se destine a acabar com elas. Acho que elas são amiguinhas do Highlander, da Hebe Camargo ou do Peter Pan. Seriam, as baratas, imortais(?) Elas estão aí para o que der e vier com suas células regenerativas e nem adianta pensar em bomba atômica.
Conheci hoje a história de uma moça que, literalmente, chorava de medo de baratas... Interessante, né? De tão ágeis, espertas e dinâmicas, elas conseguem botar medo em seres dotados de inteligência. A mim causam raiva, susto – ninguém merece um encontro noturno, na fase dormindo-acordada, encontrar com aquele monstro fedorento no canto do banheiro ou na parte superior da porta.
Sempre penso por onde a bichinha passou antes de estar ali, corajosamente caminhando no meu banheiro.
Se eu pudesse, aniquilaria todas elas. Medo de baratas, não. Mas não me peça para utilizar da minha força ou qualquer objeto a fim de esmagá-las.
Será que poderíamos ter evitado essa invasão ou nós que invadimos o espaço das tão antigas e tão novas co-habitantes de nosso mundo?

quinta-feira, 12 de março de 2009

Um inverno rigoroso

Frio de bater os queixos, de deixar a ponta dos dedos arroxeada. Frio de torcer os braços contra o peito, frio que assusta, frio saudoso, frio solitário, frio confiante.E enquanto as gotas da chuva caem sobre o solo, levando vida às raízes, um olhar de esperança é lançado em direção às nuvens que cobrem o sol. Olhar que, por diversas vezes, é estimulado para outros cantos, outras direções. Olhar que outrora fora encantado por belíssimas flores, cores e canções. Olhar que viu a beleza desse Sol, olhar que também contemplou o cansaço de um plantio em terras secas, ambiente insólito e quente.

Esperança sempre viva, vida sempre nova a nos fazer crescer...¹

E os ventos vieram para levar o que não precisava ficar para ser. Ventos que levaram o peso, o excesso. Vento que trancou as pálpebras cansadas pela luminosidade da estação passada. Bentido vento que levou o que estava seco e também o que era verde, mas infértil.
Vento que roubou coragem, mas que deixou decisão.
E os olhos contemplaram a permanência de uma raíz. A firmeza de tal não imaginava que sem demora chegaria o tempo das chuvas.
O tempo chegou e com ele, a oportunidade. A necessidade do movimento da vontade, a conformidade, a decisão em dar os passos sem ver o Sol, a renúncia ao calor, o frio por decisão. A mística da dor e da alegria, cruz e ressurreição.O frio que aparta, une abraços, separa e casa os grãos, os pedaços. Frio que me ensina a precisar de Deus, dos outros. Frio que me leva ao silêncio quando o barulho dos trovões me assusta.

"Ó, água que fere a rocha... muda a dureza em amor..."²

Um inverno gelado, um caminho de descida, abaixar-se, um caminho preciso, uma etapa que antecede uma vitória, nova primavera. A estação das chuvas, a minha estação.
---
[1] - Outono: Espetáculo Estações - Comunidade Católica Shalom.
[2] - Inverno: Espetáculo Estações - Comunidade Católica Shalom.
---



domingo, 8 de março de 2009

Quaresma

Tempo de silêncio, conversão.
Tempo de deserto, tempo de amor e sofrimento.
Tempo de dar tempo...
Que a Virgem do Silêncio, das Dores. A Mãe da Ternura... Que Nossa Senhora nos acompanhe ao calvário do Santíssimo Filho.
Até a Páscoa!

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Quem quer carona?

Eu não sei o que as pessoas de outros estados pensam sobre o transporte público da capital do país. Talvez imaginem que, assim como a cidade, bela, planejada e organizada, o coletivo seja modelo no questido qualidade no transporte público.
Já faz tempo que eu queria expor aqui as peripécias de Narlla no Coletivo. Sim, muitas aventuras, meu povo!
Passo boa parte da manhã e da noite dentro de uma estrutura amarela de metal. Com quem você vai voltar para casa? Com o Chico, eu respondo. "Chico" é o modo carinhoso com o qual faço referência aos motoristas do coletivo.
É só para dizer que na minha rotina de ônibus rola de tudo! Tem traficante, moça de família, a avó que cria os netos, os jovens que esperam o shopping fechar. Tem sempre um rosto suado da labuta diária. Tem estudante, dona de casa, celetistas que só saem às 22h. Tem cantor, tem um povo bom demais. Tem até aquele sujeito que, de tão consciente sobre a qualificação de seu estilo musical, [Sim, é o mais democrático, o popular brasileiro] liga o radinho no volume máximo para todo mundo ouvir. Afinal, no ônibus das 22h, o pessoal nem está cansado, tudo sob controle e o ânimo nas alturas.
Tem Narlla, tem Jurema, Josefina, tem Francisco.
Ah... No coletivo também chove. Para quem pensa que os temporais súbitos de Brasília são restritos a quem está a pé, no amarelinho metálico o espetáculo é expressivo.
Armem seus guarda-chuvas! Estamos no ônibus! Vira uma festa. O povo se diverte... Alguém aqui já tomou banho embaixo de uma bica? Pois é, experimente pegar o mesmo ônibus que eu em um dia de chuva forte. Daí vocês somam toda essa aventura aos imprevistos nossos de cada dia. Quando o amarelinho quebra, atrasa, quando o Pedrinho come demais e lança para fora de si o conteúdo gástrico. As queridas irmãs baratas que não gostam de água e ficam completamente desesperadas e desordenadas ao primeiro sinal concreto do líquido.
Certa vez - em dia de chuva forte - estava eu, muito bem acomodada - um pouco tensa, afinal, a qualquer momento poderia ser formada uma bica. Mas aconteceu o contrário. Havia um buraco no piso que formou um... Hum... Nem tenho palavras para expressar, rs. Um gêiser? rs
Quase isso. Foi um desespero completo. Agora entra água pelo teto, pelo piso, pelas janelas...
O melhor de tudo são as propagandas do excelentíssimo senhor governador de Brasília, José Roberto Arruda, em parceria com o ilustríssimo senhor secretário de Transporte, Sr Alberto Fraga, justificando o aumento das passagens para andar no amarelinho, a frota nova, o aumento da tarifa do metrô. Alguém arrisca uma carona?

Sejam Bem Vindos!
Estamos em Brasília.