segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Gratuidade

Na fila do ônibus, fila grande, fim do dia... Lá do final eu ouço uma voz tensa, alegre, eufórica e, ao mesmo tempo, envolvida em um discurso que garantiria um trocado para voltar para casa.
Era um senhor, meia idade, com o cansaço do dia no rosto, falando em alto e bom som que, naquele dia, ele havia conseguido um emprego, mas precisava de ajuda para voltar para casa.
"Eu fui fichado hoje! Eu tenho todos os documentos aqui... Me ajudem a pagar a passagem..."
A voz dele ia sempre chegando mais próxima. E eu pensava na coragem daquele homem, assim como a coragem de tantos outros que, por falta de opções mais confortáveis, se colocam a pedir.
De repente, uma senhora olhou pra ele e pediu que ele não falasse mais nada, que não se justificasse e deu uma boa quantia a ele. Seguramente o valor daria para pagar a passagem de volta e ficar com o troco no bolso.
Enquanto ele arregalava os olhos diante da generosidade desinteressada da moça, ela dizia:
"Você vai vencer! Não preciso ver os documentos, não precisa se explicar. Vai com Deus, muita bênção e sucesso no novo trabalho".
Foi só isso... Aconteceu há algumas semanas, mas não saiu da minha cabeça. Desde então, venho me questionando sobre o meu olhar para a gratuidade e a atenção de Deus.
Um coração grato não presta contas na ilusão de uma recompensa, não calcula ou apresenta comprovantes de boa conduta... Se assim o fizesse, estaria se doando aos pedaços, pela metade, sempre com reservas. Um coração apaixonado anuncia, fala, defende, e, diante do Amado, expõe-se por inteiro. A gratidão é uma vida, merece uma vida.
É... O pedinte da fila do ônibus me fez pensar nas minhas negociações com Deus. Tantos documentos que quero mostrar para convencê-Lo, talvez... Mas Ele sempre vence a minha inteligência e compreensão com generosidade e gratuidade. Deus não muda e sempre sabe de tudo. Conhece o meu coração, conhece o seu... Conhece muito bem quem Ele criou.
Deus me ama gratuitamente... Gratuitamente... E dessa forma, vai onde eu não consigo ir, abraça comigo o que eu preciso abraçar.
Sim, Ele vai comigo a todos os lugares. Sobe no ônibus, atravessa ruas, viaja, acolhe minhas pérolas e a minha argila. Deus toca onde minha mão não chega, onde meus braços não alcançam. Deus é a resposta quando nenhuma outra convence. Ele não me cobra explicações para permitir a minha volta...
O meu Deus, o Deus da vida, da Cruz e da Ressurreição, reduz distâncias, une corações, cura em um abraço, esconde dos grandes e revela aos pequenos.

5 comentários:

frei Rodrigo disse...

Os seus textos são realmente inspirados e bem feitos. Tocam à mente e ao coração e fazem pensar...

Luana Vaniele disse...

Valha, Bunita! Esse seu relato me tocou muito e me fez relembrar a forma simples, generosa e silenciosa que Deus tem de me amar. Obrigada!

Juliana disse...

Que bom Narllita!!! Vc de volta...nas belas palavras que inspiram e tiram muitas vezes do baú pensamentos esquecidos. Realmente somos chamados a colher de Deus frutos e não recompensas. Beijoss

Gabriela disse...

LINDÍSSIMO texto!

Paz e Bem!

Cristiana Meira disse...

Deus está nas coisas simples... Excelente seu texto!!! Deus lhe abençoe