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| Meu pé de brócolis nascendo |
quarta-feira, 25 de maio de 2016
A horta que fala
Relato de parto - Aurora - 10.02.16
A vivência do Método de Ovulação Billings nos deu uma consciência tão interessante sobre o que estava acontecendo que estávamos apenas esperando o momento certo de fazer o teste. E, de fato, havia ali um bebê. Éramos 4.
A notícia coincidiu com algumas escolhas que precisei acolher e re-escolher. Uma delas foi a minha vida profissional. A partir dali eu seria dona de casa e me dedicaria a cuidar do Tomé e do bebê que estava a caminho. A Narlla profissional ainda vive aqui, mas é e uma proporção bem menor. Atualmente me dedico a um projeto que não me tira de casa 40h por semana.
Uma pausa para essa mudança: eu passei a vida estudando e comecei a trabalhar aos 16 anos. Na época da faculdade, cheguei a somar 14h de trabalho por dia mais as aulas à noite. Ou seja: não fazia ideia do que seria cuidar de uma casa, estar atenta aos detalhes, organização, ambiente etc. Até hoje é difícil e muitas vezes eu me sinto insuficiente, mas para o tempo que vivemos hoje, estou certa de estar no lugar mais precioso e adequado, o meu lar.
Voltando ao parto. Era tempo de pensar em pré natal, avaliar o parto do Tomé e rever as escolhas. No início até pensamos na possibilidade do parto domiciliar, mas não rolou. Chegamos a conversar com uma equipe aqui de Brasília, tirar dúvidas, mas… Não rolou.
Fiz fisioterapia, pulei bastante, beijei muito o meu pequeno. Muito, muito, muito. Precisávamos viver intensamente aquele tempo (não porque o amor diminuiria), pois eu e o pai dele sabíamos que as mudanças chegariam e nada melhor que o amor para ser o suporte dele (e nosso).
Tive que lidar com a cara de enterro das pessoas quando me viam grávida e com um bebê à tira colo. “Nossa, você vai sofrer.”; “Pobre mãe”; “Me fala aqui, fala sério: vocês planejaram?”; “Coitado do seu bebê… Tão novo e já vai ganhar um irmão”. Como se ter mais um filho fosse algo ameaçador.
Nem preciso dizer o quão inoportunas e indelicadas foram essas palavras. Eu rezava para que o bebê não escutasse de dentro da minha barriga, embora, aquilo inevitavelmente me afetasse. Sei que muitas pessoas tiveram experiências difíceis e até frustrantes neste sentido, mas esta é a minha vez, é a vez da minha família. Ser empático é muito diferente de projetar as próprias frustrações no futuro alheio.
Mas tá bom. Chegou o momento de saber o sexo. É menina! Mais uma vez, decidimos rezar, pedir que Deus chamasse nossa filha pelo nome. Aurora. Foi assim que Ele a quis. Seu nome é Aurora. Por causa de Nossa Senhora, a aurora materna que precede o nascimento do Sol da Justiça, Jesus Cristo.
Chegando às 40 semanas, pressão. “Sua flha pode morrer”. “Por que não tira logo?”; “E se entrar em sofrimento?” E se… E se… E se… E se confiarmos em Deus e no acompanhamento médico que escolhemos? E se acreditarmos que, estando tudo bem, certamente chegaria o momento certo do nascimento?
Eu já estava exausta. Já estava com medo, cansada, agoniada, pesada. Já não dormia bem. Contudo, sentia-me pronta, sentia que Aurora estava pronta.
Todos os dias eu ficava pensando: é hoje. Mas nem era… Estava em pródromos desde a 38a semana. Perdendo tampão mucoso todos os dias, contrações de treinamento e nada concreto. Passei quase duas semanas com 3cm e nenhum padrão de contração que indicasse o início do trabalho de parto.
E vida normal. O tempo ia passando e fui me apegando ainda mais a Deus. Mas já estava cansada de responder a pergunta: “E aí, vai nascer quando?”. Meu marido tinha uma resposta ótima: “Até o fim do ano nasce”, rsrs.
Terça-feira de carnaval e eu decidi fazer uma daquelas receitas tiro-e-queda que estimulam o trabalho de parto. Um caldo bem apimentado. Dessa vez meu desejo por um parto normal foi além de toda e qualquer motivação que eu conhecia na primeira gestação. Eu precisava parir por causa da Aurora, por causa do Tomé, do Camilo. Era por mim, mas por causa deles.
Fomos dormir. Passei mal a noite toda. Gases, dor de barriga (cólica intestinal) e aquele pensamento: aquele caldo só me fez mal. Lá no fundo eu estava sentindo que as coisas estavam acontecendo, mas tinha medo de me frustrar.
Lá pelas 4:30 eu me levantei e fui deitar na sala… Sem conseguir dormir, fui rezar as laudes. Naquele dia, a liturgia trazia um salmo que gosto muito. Mas dessa vez ele vinha com um sabor de resposta, de súplica atendida.
Neste exato momento da reza… Uma contração, duas… Líquido saindo. Não, não é xixi e eu não consigo controlar sua saída, era a bolsa. 5:20. Subi as escadas com calma e o líquido começou a sair com mais intensidade e eu comecei a ficar super feliz e empolgada. Rsrs. De fato, meu coração e meu corpo estavam prontos. Acordei o Camilo: “Amor, a bolsa.”
Ele deu um pulo da cama meio desnorteado. Andava de um lado para o outro me fazendo várias perguntas. Eu já estava sentindo contrações dolorosas, mas perfeitamente suportáveis. Nos abraçamos. Sabíamos que a hora havia chegado. Tomé dormia.
Por incrível que pareça, já estava tudo pronto. Minha mala, a mala da Aurora, as instruções para quem viesse cuidar do Tomé. Só precisávamos viver o que precisava ser vivido ali, naquele dia.
Ligamos para a nossa doula, para o obstetra, nossos pais. Todos os envolvidos já estavam avisados. Fui tomar banho e preparar o café. Minha irmã chegou para ficar com o primogênito. Comemos, sorrimos, conversamos um pouco e fomos para a Maternidade.
A essa altura as contrações já doíam bastante, mas, ok, nada desesperador. Chegamos à maternidade às 7:00. Meu médico já estava me aguardando. 4cm de dilatação. Mesma medida que cheguei para o parto do Tomé.
Tinha mecônio no líquido, mas era bem diluído. Nada preocupante. Fomos fazer um cardiotoco. Alí eu já estava com MUITA dor. Mas vamos lá, Narlla. Contrações têm intervalos e você pode descansar nestes intervalos. Só que não.
Saindo do cardiotoco, 7:30, era uma atrás da outra. A ideia era ir para o quarto para viver o trabalho de parto e descer para o Centro Cirúrgico quando estivéssemos “quase lá”.
Meu obstetra perguntou se eu queria ir de cadeiras de rodas, mas achou melhor irmos caminhando, mesmo. Eu concordei, sabia que me manter em movimento facilitaria as coisas. “No seu ritmo”, ele dizia. Só que eu não tinha ritmo. O negócio já estava alucinado. Esse trajeto entre a sala do exame e o quarto foi gigante.
Ao chegar no quarto, eu simplesmente não encontrava mais posição. Nessa hora, minha doula (que também é fisioterapeuta) foi essencial pra me ajudar no alívio da dor.
Deitei na cama. Por incrível que pareça foi a posição “possível”. O médico sugeriu que eu fosse relaxar no chuveiro, então, Camilo saiu pra buscar a bola de pilates no carro.
Eu só observava a movimentação deles e pensava comigo mesma: não consigo e não quero me mexer. Imagina sair daqui e ir pra um chuveiro. Sem chance. Rsrs.
Ali naquela fase de transição - eu não poderia prever que nasceria tão logo, então - amarelei. Me desesperei, disse que não daria conta, que aquilo tinha que acabar logo, “QUERO ANESTESIA!!! QUERO ANESTESIA!!! NÃO VAI DAR, GENTE!”. O obstetra olhou bem nos meus olhos e disse que era CEDO para anestesia e que aquela opção poderia interromper o progresso do trabalho de parto. Nessa hora eu me conformei com aquela dor nível 11 e já me instalava na partolândia, definitivamente.
O médico saiu e disse que me avaliaria novamente em meia hora. Foi ele sair pra eu começar a sentir os puxos. Um puxo, dois puxos. Eu grito: Vai NASCEEEERRRRR!!! A essa altura, meu marido já estava de volta e eu percebia no rosto dele e da doula que eles sabiam que ia nascer loguinho. O médico veio correndo e eu já sentia a cabeça da Aurora no canal. De repente, alguém chegou com uma cadeira de rodas na ilusão de que daria tempo de ir para o Centro Cirúrgico. Eu me apoiei na cadeira e disse que não daria tempo. Estava calma, mas sabia que não ia dar tempo. :-)
Dr. Petrus sugeriu que eu ficasse de cócoras ali mesmo, no chão do quarto. De repente, improvisou-se um campo estéril, enfermeiras apareceram silenciosamente. Estávamos todos ali, no chão. Tranquilos. Sem dizer nada, só esperando. Chamaram também um pediatra que estava avaliando os bebês daquele andar. Um doutor maravilhoso e super humano.
Eu senti tudo, cada contração do expulsivo. A pior dor, antes mesmo de Aurora nascer, já havia passado. Fiz força quando meu corpo mandou, respirei, louvei a Deus, agradeci. Não perdi a noção do mundo, como foi no parto do Tomé. Não era mais aquela dor que me deixava com “cara de psicopata”. (Esta foi a descrição gentil do meu marido sobre o momento que precedeu aquele lindo instante.)
De repente minha filha nasce. Gordinha, linda, quentinha, toda emborrachadinha de vérnix. Foi direto para os meus braços. Ficamos ali naquele reconhecimento por alguns minutos, ela ensaiou pegar o peito, mas só o fez alguns outros minutos mais tarde. E quando fez, ainda em sua primeira hora de vida, parecia dominar aquela matéria desde sempre.
Ela chorou… Eu cantei o nome da Virgem Maria, ela se calou. “A mamãe está aqui…”
Mais uma vez Deus provou que confia em nós, mais uma criatura nascia. Mais uma mulher chegava ao mundo com amor e respeito.
Trabalho de parto com 3h26min de duração, uma bebezinha de 4kg e o início de um novo tempo.
E a gratidão que me sustentaria em todos os momentos seguintes, nos desafios que se seguiam, nas ofertas e nas bênçãos.
Eu te louvo, Jesus, pelo dom da maternidade, por ser arrancada de mim mesma todos os dias, por ter a graça de ofertar meu corpo, meu coração, minhas lágrimas, meu esforço, minha vida inteira na geração de filhos para o céu.
quinta-feira, 7 de abril de 2016
Para Camilo
domingo, 10 de maio de 2015
Mães e falíveis
Descobri com o meu primeiro filho que preciso aprender a ser filha, ser cuidada e amada. Retomei valores esquecidos, alcancei misericórdia e tenho me feito misericórdia {ou ao menos tenho tentado}.
Descobri que com a mesma dor que contemplo as transições e limitações do meu bebê, o Senhor também sofre comigo, sofre ao esperar o meu tempo, meus passos, minhas transições.
Gratidão, Senhor. Quando eu me encontro na escassez, Teu amor providencia o que falta. Quando eu quero minha vida de volta, Teu amor vem me consolar e me fazer provar do céu, olhar para o infinito e novamente colocar o meu coração no eixo da eternidade.
Eu sou profundamente feliz por esta via de santidade e plenitude.
Quero mais, quero tudo.
sexta-feira, 10 de abril de 2015
Quando as frutas me fazem chorar
Após seis meses de aleitamento materno exclusivo e sob livre demanda, estamos nos preparando para o alimento sólido. Pensar em mais esta etapa enche meu coração de gratidão e também de receio: estou consciente de que a partir de agora ele necessita de mais alimento, mas também estará propenso a doenças, viroses etc. Um ciclo natural da vida: da minha, da nossa, da vida dele.
Só sei que antes de esta experiência me atravessar, eu jamais choraria emocionada por imaginar que o meu amor de entranhas vai comer uma pêra! Rs Sim, pensar em maçãs, bananas, pêras, verduras, copos, talheres... Isso tem mexido comigo.
É mais um passo na sua independência... Passo que vai abrindo uma ferida de generosidade e gratuidade: estamos gerando filhos para a eternidade, não para este mundo e muito menos para nós mesmos. Essa ferida precisa mesmo ser aberta, precisa sangrar, precisa, então, se tornar uma chaga gloriosa e emanar vida. Só assim este caminho faz sentido. Só assim eu trilho um caminho de luta para que a minha maternidade seja livre, gratuita, fecunda.
Ah, caminho feliz! Cheio de ternura, que me faz encontrar energia onde não aparenta ter, que me faz ver beleza na escassez, que me faz encontrar paciência no esgotamento. Por ora, muito sono, mas uma via sempre aberta para o sustento da graça de Deus.
Até a próxima.
Shalom!
terça-feira, 7 de abril de 2015
Dois anos, um neném e um cinema
terça-feira, 25 de novembro de 2014
Tomé, o nome escolhido para o nosso bebê
Significa 'divisão', seja porque afastou sua mente do amor às coisas do mundo, seja porque se separou dos outros na forma de crer na Ressurreição.
Poder-se-ia dizer ainda que o nome Tomé vem de 'totus means', por ter-se deixado inundar inteiramente pelo amor de Deus.
O nome Tomé também pode vir de 'Theos', Deus, e 'meus', meu, isto é, 'Deus meu', o que corresponde ao que disse quando reconheceu sua fé: 'Senhor meu e Deus meu'". Legenda Áurea - A vida dos Santos (Jacopo de Varazze)
Empoderada, não. Consciente e pobre, apenas
Postarei aqui.
13 de outubro de 2014
Muito ainda está por acontecer. Mas quero tocar em um ponto, ou melhor, em um termo que, por estar no meio de pessoas que têm costumes e culturas bem diferentes dos meus, eu ouço sempre. O tal do “empoderamento feminino”. Eu sei o que as pessoas querem dizer com isso. Algumas são, de fato, marcadas por uma ideologia autossuficiente e determinista de que basta seguir alguns passos e você será a mulher mais forte da galáxia. É, eu recebi dicas do tipo receita de bolo para ser uma mulher “empoderada”, a “toda poderosa mulher maravilha que conquistou o que desejava”. E talvez, pelas minhas amigas feministas, eu seja mesmo. Mas para mim isso tem outro nome, outra tônica, outro sentido.
Li, estudei, assisti vídeos, vivi as coisas junto com meu marido, mas eu continuo eu mesma.
E respondo: Não, eu não sei como será. Não sei que dia vai ser, não sei se vai ser cesárea ou normal, se vai ser apenas vaginal ou humanizado, se vai ser na água ou na bacia, no chuveiro. Se vai dar tempo de chegar no hospital, se vai ser na ambulância, de madrugada, no fim da tarde. Não sei... Nisto consiste a prova mais real de que o poder em questão não é o meu, mas o doce e maravilhoso agir da providência divina.
Temos planos, apenas. Temos um parto planejado. Mas não temos o poder de controlar. Na verdade, vou aprendendo, a cada dia, que abandonar o controle será o grande serviço que presto a mim e à minha família. A chance de dar a Deus o reconhecimento de que, na verdade, todo poder pertence a Ele. Eu, no máximo: consciente, entregue a tudo que experimentamos nestes nove meses.
Eu, digo: nós, pobres, entregues nas mãos de Deus.
Foi Ele quem nos deu o Tomé, que providenciou o nosso encontro. Então, honrada por ser mulher, é o tempo apenas de recolher tudo e guardar no silêncio o que é tesouro.
Como disse meu marido este fim de semana: não se trata de “empoderamento feminino”, mas da graça que Deus te deu quando te fez mãe.
Então, abraço, acolho, recebo essa graça, meu Deus. Tudo é Teu.
Acredito muito que estas últimas semanas sejam as mais intensas. Pelo menos é assim que tenho vivido. As emoções estão em ebulição, meu corpo não é mais o mesmo, definitivamente. São 17kg a mais. São cabelos brilhantes, são também estrias e celulites, é o refluxo noturno, o cansaço, a falta de ar, é o não conseguir se sentar com as pernas fechadinhas, é o andar como uma pata.
É a beleza que você vê, mas às vezes eu não vejo.
São os ossos que parecem se partir, se quebrar. São as marcas de uma cruz que me ressuscita, me desperta para uma oferta que eu já ouvi falar, mas ainda não experimentei. Ele vai nascer. E nós também.
sexta-feira, 21 de novembro de 2014
Meu parto
Também não sei quando será a próxima, mas deixo aqui o acontecimento mais recente e revolucionário de minha existência. O nascimento do meu primeiro filho, o Tomé.
Ao ler "O Amor que dá vida", de Kimberly Hahn, entrei em parafuso. Descobri que eu não estava assim tão aberta à vida. No noivado, documentos da Igreja, encíclicas e a maravilhosa Teologia do Corpo nos cercaram por todos os lados. Não havia ali naquele tesouro a perspectiva de adiar filhos, mas de "espaçá-los". E eu queria adiar. Por outro lado, passou a me incomodar profundamente que o conselho mais frequente que recebíamos antes do casamento era esperar para engravidar. Curtir o casamento antes. Era compreensível, mas não era para nós.
Nos casamos e em mim não estava reconciliada a dimensão de que estar pronta para casar significa estar pronta para ser mãe. Biológica e espiritualmente falando. Eu tinha medo e, naturalmente, como estavam os discípulos depois da morte de Jesus, tranquei as portas do meu coração. Não confiei que Deus daria para nós a felicidade traduzida na dinâmica de sua providência.
O Senhor quis me conquistar na liberdade. E eu também desejava assim. Escolheu, então, o amor e a confiança no meu marido e na relação que começávamos a construir a partir do nosso encontro conjugal, da celebração efetiva do nosso matrimônio. Esse meu fechamento não durou muito. Acredito que um ou dois meses, no máximo. O ato conjugal passou a ser orientado para a vida em sua plenitude.
Neste caminho, foram oito meses de expectativa até que a menstruação atrasou. Um caminho de libertação. Deu positivo! Para nós, foi como o retorno de Jesus naquela ocasião em que faltava visitar alguém. Faltava visitar o apóstolo Tomé. Faltava visitar a Narlla e o Camilo. Nosso bebê foi concebido em um ato de amor e entrega no dia 30 de janeiro de 2014.
Foram meses de descobertas e lutas, de repouso e também constantes súbitos de energia. Eu vi minha barriga crescer, vi meu marido se tornar pai e eu, mãe. Me vi 17kg mais gorda!
A decisão por um parto humanizado tomou conta de nós quando assistimos o documentário O Renascimento do Parto, isso aconteceu antes da gravidez. Acho que foi assim com muita gente! Rs. Impossível sair daquela experiência de filme com o mesmo pensamento.
Estudamos muito! Frequentávamos rodas de partilha, acolhíamos as experiências de outros casais, descobrimos a figura da doula e mais: seria praticamente impossível encontrar um GO do plano que topasse do jeito que a gente estava pensando. Entramos em um mundo bem diferente do que estamos acostumados. Era meu desejo de parir por amor ao meu filho. Ao mesmo tempo, conheci um movimento marcado profundamente por ideologias feministas e suas sutilezas. Decidimos filtrar e deixar nossa marca nesse meio da humanização do parto. Nossa marca consagrada a Deus. Não foi fácil, mas foi maravilhoso.
No dia 21 de outubro, à noite, senti vontade de ligar para amigas que eu não falava há tempos. Naquele dia quis sair de casa, ver gente, caminhar, andar numa feira. Assim o fiz. O dia foi terminando e foi dando vontade de me recolher, eu realmente andei muito e estava cansada. Camilo foi a uma reunião e eu fiquei só. Foi ótimo. Retomei a leitura de um romance da Jane Austen, preparei o lanche para quando ele chegasse e quis ligar para amigas que não via há tempos.
Fomos dormir. Era dia de vigília para o Camilo. Lá no fundo eu não queria que ele fosse. Também não sei exatamente o porquê, a verdade é que eu o queria comigo 24h por dia há algumas semanas. (Rs)
Fisicamente, apenas leves (levíssimas) cólicas que me acompanhavam há duas semanas. E as braxton hicks. Nada novo. Meu corpo dizia que Tomé estava chegando, mas eu não pensei que seria tão logo.
Fiz planos para o dia seguinte. Ir ao mercado, ver pessoas, me manter em movimento, em atividade. Era dia de fisioterapia, também. Sempre que possível, agachar, treinar o períneo. Caminhar, conseguir uma piscina, afinal o calor que fazia em Brasília era de lascar. E muito afeto!
Eu já pensava: meu Deus, que dia vai ser? Tenho medo de não conseguir. Medo de não fazer Tua Vontade.
E por mais que eu buscasse em mim algum compromisso com as pessoas que sabiam do nosso desejo de um parto digno, não me prendi a isso. Meu compromisso era com o meu filho e com o plano de Deus para a nossa família.
Nos preparamos (se é que tem como) para que desse tudo errado também. No meu íntimo, morria de pânico de ter que partir para uma cirurgia, mas eu também estava consciente de que tudo estava nas mãos de Deus e essa possibilidade era real, embora não pudesse nunca ser considerada um atestado de fracasso.
Às 3 horas da manhã do dia 22 de outubro, dia de São João Paulo II, eu acordo com uma dor forte que "nascia" na lombar e abraçava meu ventre. Era diferente. Doía forte, mas parece que depois minha carne relaxava. Logo em seguida, quando veio a segunda, eu já estava de quatro em cima da cama acordando meu marido.
Logo percebemos que eram contrações. E que emoção em sentir uma contração! Rsrs
Por mais louco que pudesse parecer, eu estava muito, muito feliz em sentir aquilo. Eu desejei aquela dor, eu quis viver aquilo. Só de lembrar, me emociono. Escapou, então, o louvor. Eu louvei a Deus pela dor. Pela contração que faria meu filho nascer, pelo trabalho de parto que estimulava (e vice versa) os hormônios mais perfeitos que nos transformariam de corpo e alma para receber a Obra Nova. Começamos a contar!
Enquanto isso, na terceira ou quarta contração, fui ao banheiro e vi fragmentos do tampão mucoso.
Meu Deus, que alegria! É sangue e muco. É o Tomé chegando!
Ali mesmo, sentada ao sanitário, abracei meu marido e vibramos na mesma alegria: é a hora!
A contagem das contratações era regular e com intervalos de 2 minutos entre elas.
Estávamos tranquilos, nós sabíamos o que estava acontecendo.
Camilo ligou para o médico que nos orientou e também para a nossa doula.
O plano era passar o máximo de tempo possível em casa, mas tudo indicava que as coisas evoluiriam bem e, digamos, rápido. Na maternidade havia uma sala de parto humanizada, com banheira, bola, silêncio, sem ar condicionado.
Antes de ir para lá, tomei banho tranquila, sentada na bola. E feliz! Nunca antes uma dor havia me trazido, até aquele momento, tanto gozo! Terminamos de arrumar as coisas, peguei mel, rapadura, o terço e meus pertences.
Chegamos à maternidade quase 5 da manhã. E as contrações no mesmo ritmo. E cada vez mais dolorosas. Eu só me lembrava de Jesus na cruz, de Nossa Senhora, do Moysés Azevedo, quando ele diz que o louvor nunca deve sair dos nossos lábios!
Quando a contração me visitava, era como se eu saísse desse mundo: onde eu estivesse, me agachava e agradecia a Deus. De dois em dois incansáveis minutos. A fase latente passou e já chegamos na maternidade com 4 cm... Quase 5. Nossa doula já estava lá nos esperando.
Depois da avaliação, eu já sabia que ficaria ali mesmo. Tomamos café. Nos intervalos das contrações era possível conversar, sorrir, rezar. Um detalhe importante: em nosso plano de parto - que era conhecido por nosso núcleo familiar - combinamos que só avisaríamos quando já estivéssemos lá, em fase ativa. E que o trabalho de parto seria assistido pela doula e pelo pai, além do médico, que só aparecia nos momentos oportunos. Foi ótimo. Passei a maior parte do tempo só com o Camilo e com a Rosa.
Sobre a dor... Era uma dor que me amolecia, doía muito e ficava sempre mais forte.
Comi muita rapadura, bebi água, comi frutas. Fui amada pelo meu marido, muito amada.
Meu sonho romântico de parto era que o Tomé nascesse na água. Mas, como nem tudo é lindo e cintilante como em nossos sonhos, o período expulsivo foi chegando e eu fui virando bicho. Não suportava a água quente.
A partolândia chegou! Aquele medo latente veio com toda força e eu achei realmente que iria morrer e que não conseguiria fazer a tal força. E que o Tomé não fosse nascer. Nessa hora, foi fundamental a coragem do meu marido em se manter sóbrio, segurar a minha mão e (tentar, rs) me fazer acreditar que o trabalho de parto estava caminhando. Na minha cabeça, tudo estava parado e a culpa era minha.
Foi uma sensação muito doida. Camilo cantou pra mim as palavras de Santa Teresa: "Nada perturbe o teu coração. Nada te espante, não. Pois tudo passará, só Deus não mudará. Só Ele ficará, Ele nos bastará. A paciência tudo alcança, quem a Deus tem, nada lhe faltará. Fora de Deus tudo é vão. Só Ele é e basta".
E foi assim que continuamos...
Hoje eu coloco diante de Deus o que senti naquele momento de desespero e percebo o quanto ainda me cobro diante da vida. Enfim... Isso é papo pra outra esfera.
Eu pedi anestesia (graças a Deus não rolou), chorei, fui indelicada com o obstetra (que é um poço de paciência e cortesia).
Os 10 cm já estavam ali. A vontade de fazer a força também. Doeu.
Eu fiz cocô, xixi, quis vomitar. Fui pobre, não tinha mais como voltar atrás e eu não queria. Meu filho estava perto. Pertinho. O pai dele estava ali comigo, havia amor, esperança, havia confiança. Deus estava conosco e entre nós. Uma nova criatura estava prestes a nascer e era o meu filho, o fruto da Ressurreição de Cristo em nossa vida, o Tomé.
Doeu, gente. Mas foi a dor mais fecunda e feliz que eu já pude sentir e viver. Foi o início.
Aquela sensação de morte se confirmou. Eu, de fato, morri. Morri e nasci de novo. Nasci ali naquela banqueta, parindo aos berros e chamando o meu filhinho. Nasci ali, sendo abraçada pelo homem com quem decidi caminhar para o céu no matrimônio. Nasci ali, junto com o Tomé, sob os cuidados de São João Paulo II.
Quando o vi em meus braços, chorando (gritando!), tão pequeno e ao mesmo tempo tão bravo, tão inocente e tão protagonista, eu não consigo me lembrar do que estava acontecendo ao meu redor. Eu não sentia mais dor, eu só o sentia, apenas.
Era eu, o Camilo e o Tomé. Era Deus entre nós. Era mais um passo em nosso caminho de construir nossa pequena civilização do amor. Eu via ali, naquele bebê miudinho uma extensão de mim, mas, por mais dependente que seja, o vi portador de uma autonomia indescritível.
É o milagre da vida! Era um terceiro, o primeiro da geração Sales Bessoni. Era o amor novo brotando dentro de mim. Se ali mesmo Deus me desse a oportunidade de morrer, morreria por ele e morreria feliz.
E para quem me chamou de louca por desejar viver essa dor, livre de intervenções e atalhos, eu digo: quero de novo!
Por Narlla B. de Sales Bessoni.
Pai: Camilo Araujo Bessoni
Bebê: Tomé de Sales Bessoni
Obstetra: Dr. Petrus Sanchez
Doula: Maria Rosa Mouta
sábado, 6 de abril de 2013
Dia 7 de abril
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
Renúncia
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
Meus irmãos
quarta-feira, 25 de julho de 2012
Igreja Católica na China
Matéria publicada em junho de 2011 na Revista Brasília Católica
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domingo, 20 de maio de 2012
Adoção: pais e mães por escolha de Deus
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| Foto (atual) dos filhos de Eliz e Roque. Já com a presença de Marcus Vinícus, Matheus Henrique e o flamenguista mais jovem: Bento. |
quinta-feira, 8 de março de 2012
Mulher macho, não, senhor!
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Curiosidade e fofoca
Quem não fica feliz em ser surpreendido? Há, também, quem não consiga controlar o péssimo hábito de especular, investigar, supor... Enfim, infeliz é quem não dá espaço para esperar pelo inesperado!
Tem também aquele tipo curioso, que cai frequentemente no pecado da língua. Fala demais! Precisa de que alguém corrobore com suas teses e hipóteses. E vai falando, procurando aprovação, quebrando o silêncio que traz em si o respeito pelo que o outro vive, como se fosse um detetive frustrado a procura de uma boa causa: mas a causa não existe, não exige esforço, não há patrão que o pague pelo serviço, não há demanda que justifique a afobação. Não, não há.
E como é desagradável relacionar-se com quem sustenta seus assuntos apoiados na vida alheia, nunca se surpreende com nada, não se permite sentir o cheiro do suspense. O pior: sempre sabe de tudo (ou quer saber)!
O fofoqueiro é um ladrão, rouba a paz e a verdade dos fatos. Rouba a serenidade do processo comunicativo e condena – sem querer querendo - quem, muitas vezes, já foi ou está sendo penalizado por alguma situação.
Vamos libertar as pessoas do alvo de nossas conversas, vamos libertar os nossos próprios amigos da infelicidade de conviver com a insegurança e a desgraça da curiosidade desordenada. O essencial dos relacionamentos nos aguarda.
Quero falar que é bom ser surpreendido! As surpresas, até as que não são boas, nos tornam pessoas mais humanas, mais simples, mais humildes, inclusive. É importante esperar. E nutrir uma espera é diferente de especular. A espera nos liberta dos excessos, das armadilhas do tempo. Liberta o coração para esperar mais em Deus do que nos homens.















